jueves, 14 de mayo de 2015


                                                               ELA SIM, ELE NAO

Ele lutou, esperou e conseguiu. Ela relutou e decidiu se lançar ao destino. Ela teve vontade e conseguiu ficar o mais perto possível. Ele se afastou 11.000km. Desandou. Confundiu. Esfriou. Abriram-se novas vagas no coração dele. Apesar de tudo voltaram a estar perto. Poderiam ser perfeitos juntos, mas não foi possível acontecer. “O que ela sentia era forte e os sentimentos dele eram um mistério”. Ela não falava nada. Ele não dizia nada. Ela queria dar um passo, ele estava satisfeito com o presente. Não havia declarações. Não havia exigências. Não havia planos e nem promessas. Não existia um rótulo. Eles estavam livres, mas presos um ao outro. Ela queria ser feliz com ele e fazia o possível para transmitir-lhe satisfação. Ele mantinha um ar de neutralidade. Ela queria dar continuidade à história, mas ele não conseguia explicar o que queria. No entanto, algum sentimento significativo pairava no ar, e não dava para desistir. Ela fazia carinho. Ele preparava a comida. Ela esperava. Ele fumava. Ela pedia um abraço. Ele trabalhava. Ela cuidava dele. Ele alimentava vícios. Ela gostava de compartir a beleza e a sensação da cidade com ele. Ele gostava de sentar-se junto a ela no sofá. Ela escrevia. Ele prometia diálogos. Ela SIM. Ele NÃO.


“Às vezes parecia perdido, às vezes ficava frio, mas de alguma forma se aquecia de novo”. De alguma maneira, precisavam um do outro. Tudo o que ela queria, pensava e esperava era inatingível na mente dele. Ela se tornou muito complicada, tão sentimental que se sentia em muitos momentos ignorada. Ele, sempre muito vaidoso, gostava de se demonstrar inabalável com as divergências do meio do caminho. Ele, uma rocha. Ela, um papel molhado, completamente maleável. Ela o queria. Ele estava com ela, naquele momento. Ela sonhava em ouvi-lo expressar um sentimento de afeição. A felicidade não existia. Era só um sonho ou, talvez, uma esperança de ambas as partes.


Ele a abandonou em doses homeopáticas e, em seguida, ela o abandonou. Desistência mútua, ainda um pouco desconexa. Ainda existem sentimentos fortes e inexplicáveis. Ela quer ser feliz. Ele luta por algo que ainda não conhece. Ela ainda o ama e por mais que tenha vontade de pedir-lhe um abraço, dizer que sente saudade, que gosta de compartilhar momentos resolveu petrificar o coração, simplesmente, porque descobriu que não é capaz de fazê-lo feliz. E com mais um soco levado na cara pela vida ela, no fundo, sabe que “o amor, mesmo que não exista em nós, manda os genéricos, os clones, os falsos amores. E vivemos de encontros e desencontros constantes, preparando terrenos, adubando corações, mendigando sentimentos, para que um dia ele chegue. E chega, veste as pantufas, levanta as cobertas e nos abraça com carinho. Liga a televisão, troca de canais, derruba líquidos em tapetes, bagunça as roupas, desarruma a geladeira, mas enfeita e decora nossa casa e nossa alma. Revive o que nunca esteve morto”.


Ela tem um corte aberto e sangrando, mas, dialogando consigo mesma e num momento de lucidez se descobriu forte, apesar de ter medo de si mesma. De uma maneira pura e carinhosa, sem maldade o que ela mais deseja é cicatrizar toda essa história. Ela sonha. Ela gosta muito de escrever e isso lhe faz bem. Simplesmente bem.